Vídeo desenvolvido por estudantes Waiãpi foi selecionado para exibição em projeto da ONU

O filme “Os donos que não podemos ver” este ano tornou-se uma das histórias imersivas em exibição no My World 360º

Na aldeia Waiãpi, localizada no Município de Pedra Branca do Amapari, os estudantes Kauri Waiãpi, Motã Waiãpi, Kuripiri Waiãpi da Escola Indígena Estadual de Aramirã, juntamente com o professor Aikyry Waiãpi e com o apoio do diretor Evilázio Ribas, produziram o vídeo “Moma’e jarã kõ jikuwaê’ã kõ” (Os donos que não podemos ver) que recentemente tornou-se uma das histórias imersivas em exibição no My World 360º.

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O My World 360º é uma parceria da Organização das Nações Unidas (ONU) com a Oculus (Facebook) e propõe a elaboração de histórias por meio de tecnologias imersivas, abordando problemas relevantes nas comunidades e relacionando-os aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). O projeto foi criado em 2018 e atualmente a exibição online reúne mais de 100 histórias, as quais são reproduzidas em eventos e reuniões da ONU, e agora inclui o vídeo “Os donos que não podemos ver”.

Os donos que não podemos ver

No segundo semestre de 2019, a Escola Indígena Estadual de Aramirã foi uma das selecionadas para representar a região Norte do Brasil e o professor de Educação Intercultural Aikyry Waiãpi viajou para a sede da ONG Recode, no Rio de Janeiro, para treinamento. Devido à dinâmica da escola, Rafael Romão, especialista em educação audiovisual da Recode, decidiu ajudar a terminar o projeto indo para a escola em Pedra Branca do Amapari, ao invés de oferecer atendimento remoto, como já fizeram em outros projetos.

“Eles queriam difundir o conhecimento e a cultura Waiãpi”, conta Romão em entrevista ao Centro de Informações das Nações Unidas no Brasil (UNIC Rio). No filme com tecnologia 360º, eles dizem que as entidades as quais cuidam da floresta também são os donos de rios, matas, animais – tudo que integra o habitat da comunidade. Também pedem o fim das queimadas na floresta amazônica e da poluição das águas, pois os danos ao meio ambiente afetam os povos visíveis (os Waiãpi) e os povos invisíveis (entidades donas de todo o ecossistema onde vivem).

“Para eles, todos os seres e fenômenos têm donos metafísicos. Se eles, por exemplo, explorarem demais um determinado rio, estariam ofendendo esse dono que se vingaria deles”, expõe Rafael Romão.

“A cosmologia Waiãpi é importante nesse respeito ao meio ambiente. Eles têm uma visão de mundo que permeia tudo, uma disposição, uma ética de olhar as coisas de forma diferente”, ele completa.

Sempre vinculando os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável aos projetos, Romão explica que eles abordam os objetivos de forma que seja compreensível como as questões locais podem se conectar às questões globais. “Primeiro fazemos o vídeo e depois eles conectam os ODS e percebem o quanto um problema local está relacionado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”, afirma.

O vídeo foi finalizado com Romão quando os alunos viajaram à Brasília, para o evento nacional Recode em 2019. Este ano, o filme foi então selecionado para a exibição no My World 360º, uma surpresa que os Waiãpi somente irão receber quando não estiverem mais vivendo em isolamento em razão da pandemia do novo coronavírus.

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Motã Waiãpi (Foto: Rafael Romão)

Projeto Cineastas 360º

O vídeo produzido pelos estudantes da Escola Indígena Estadual de Aramirã apenas se tornou realidade através do projeto Cineastas 360º (360º Filmmakers), desenvolvido pela ONG Recode com a parceria da Oculus. Há 25 anos, a Recode tem trabalhado com o empoderamento digital, doando equipamentos de tecnologia imersiva e treinando professores de escolas públicas, com o objetivo de encorajar os alunos do ensino médio a refletirem acerca dos problemas de suas comunidades.

Tendo as informações de como usar os equipamentos – fones de ouvido, tripés, smartphones, câmeras 360, softwares e materiais didáticos e de como os jovens podem contribuir para a resolução de impasses na comunidade, o projeto já produziu mais de 100 curtas em todo o Brasil.

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Letícia da Paz

Letícia da Paz

Acadêmica de jornalismo na Universidade Federal do Amapá e colaboradora no site Catraia Digital.

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