Após um ano de pandemia, profissionais de saúde relatam suas experiências contra a Covid 19

Saúde mental abalada, excesso de trabalho e falta de estrutura são alguns dos problemas enfrentados

Por Mônica Peixoto e Deise Silva

Um ano depois do início da pandemia e com o colapso iminente, profissionais de saúde estão exaustos e precisando se esforçar cada vez mais durante toda sua atuação. Com o agravamento da tragédia, o sentimento de esperança fica cada vez mais distante.

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A sensação de alívio após a redução de casos depois do primeiro pico de infecções no Brasil foi passageira e logo a tempestade retornou. Com a segunda onda, aparentemente ainda mais violenta, os hospitais voltaram a ficar lotados, leitos e UTI´s sem vagas, falta de medicamentos e estados adotando medidas ainda mais rígidas para tentar conter a transmissão do vírus.

Diante desse cenário, os profissionais da saúde representam um papel fundamental, mas enfrentam diversos desafios, muita pressão e ainda precisam lidar com a exaustão tanto física quanto mental.

Dr. Achiles é médico radiologista, e trabalhou no setor de ultrassonografia no Hospital de Emergências de Macapá no ano de 2020. Ele analisa o papel essencial desenvolvido pelos profissionais de saúde durante a pandemia, mas relata as dificuldades e momentos difíceis. “Trabalham incansavelmente com poucos equipamentos de proteção individual (EPIs), perdem muitos pacientes por falta de estrutura adequada (leitos, medicamentos e equipamentos), presenciam colegas de trabalho, amigos e familiares adoecendo, muitas vezes chegando ao óbito. Foram momentos tensos no ano passado, principalmente no pico da doença, que infelizmente está voltando em 2021”, disse.

Dr. Achiles (Foto: Acervo Pessoal)

Ele relata que chegou a laudar cerca de 150 exames por dia, o que o levou a uma exaustão mental muito grande. “No início da doença, ainda não sabíamos que a tomografia de tórax teria um papel tão importante na pandemia. Recebi diversas ligações e mensagens durante um grande período em buscas de orientações, avaliações e resultados de exames. A situação já era difícil por falta de profissionais. Daí os que estavam atuando adoeciam e tinham que ser afastados. Muitos começaram a dobrar plantões, o que só piorava o cansaço físico e mental. Só mesmo Deus para dar forças a todas essas pessoas”, contou.

Falta de valorização dos profissionais da saúde

 “Com certeza não tem a valorização que merecem”, destaca o médico. Ele relata que muitos profissionais se doam incansavelmente para o trabalho e não possuem todos os recursos necessários, “temos muitos profissionais de saúde adoecendo e morrendo, que não mediram esforços no trabalho para a cura de pacientes em tratamento ambulatorial ou hospitalar da COVID-19. Profissionais que trabalhavam com EPIs precários, salários defasados e com falta de assistência quando adoecem. Teve um caso que soube que queriam dar falta para a profissional que estava doente, porque ela não tinha atestado médico de um centro covid. Total falta de bom senso”.

Os cuidados básicos são importantes, sendo também necessário que haja boas condições de trabalho para maior segurança dos profissionais da saúde. De acordo com o Dr. Achiles, uma das maneiras de ajudar a melhorar a saúde mental e o esgotamento dos profissionais que atuam na linha de frente contra a Covid seria “garantindo EPIs e melhores condições de trabalho, contratando mais profissionais para revezar escalas de trabalho, proporcionando vacinação para todos e planejando uma assistência diferenciada para os profissionais de saúde doentes”.

Sequelas físicas e mentais

Além de conviver com o cansaço, o medo e a correria, os profissionais ainda precisam lidar com situações e relatos tristes de pacientes, familiares ou até eles mesmos que tiveram perdas para a doença. “Tive contato com muitas histórias, tanto de pessoas através das redes sociais, como de amigos próximos que passaram dificuldades próprias ou com familiares no curso da doença. Uma que me deixou muito triste foi de uma amiga que perdeu o pai e o irmão, ambos médicos, com diferença de poucos dias. Essa doença está deixando muitas sequelas, sobretudo mental”, relatou o médico.

Os Desafios de atuar na linha de frente contra a Covid-19

Tem que ter coragem e amor ao próximo primeiro”, afirma a enfermeira Michelle Bosque.

As atividades dos profissionais de saúde são árduas e requer resistência a todo momento. A enfermeira Michelle Bosque que trabalha no Centro Covid do Hospital Universitário do Amapá (HU) conta que sua primeira dificuldade foi não ter o apoio da família ao ser chamada para está na linha de frente contra o coronavírus: “Eles tiveram medo por mim e por eles, de trazer contaminação para casa ou que eu morresse”. Ela também relata que mesmo assim aceitou e com o passar do tempo ficou muito feliz em poder ajudar os pacientes que estavam internados. Porém, detalha que a rotina é exaustiva devido o cansaço e as noites sem dormir.

Assim como o Dr. Achiles, Michelle também teve sua saúde mental abalada. Ela conta sua experiência pessoal e diz que o vírus é maldoso e que a doença não escolhe rico ou pobre, por religião ou cor, a vítima pode ser qualquer pessoa. A enfermeira afirma que ficou muito assustada com os casos: “Todas as vezes que voltava pra casa eu ficava surtada com álcool direto e vitaminas”. Michelle revela que com a nova variante o sentimento de insegurança é grande e que há um mês atrás estava triste devido o excesso de trabalho e a falta de tempo para ela mesma e a família: ” …Relaxei um pouco e comecei a olhar pra mim, não estava me cuidando”, conta.

Os profissionais precisam manter um equilíbrio entre a profissão e a vida pessoal, um jogo de cintura necessário para conciliar tudo e enfrentar desafios com detalhes desconhecidos pela ciência. A enfermeira Michelle fez questão de destacar sua maior experiência na batalha contra o vírus: “Foi estar trabalhando com crianças com Covid. Eu nunca tinha trabalhado antes com crianças. Quando fui escalada fiquei com muito medo e voltei a estudar.” Dessa forma, a profissional venceu barreiras e hoje se diz muito grata a Deus pela oportunidade de oferecer o seu melhor.

Michelle Bosque (Foto: Acervo Pessoal)

Ainda expondo suas vivências ela lembra  dos pacientes que ficaram marcados em sua memória: “Pacientes idosos que dependiam da gente e choravam pedindo para não morrer e não serem intubados. Teve um paciente que chegou a fugir, mas conseguimos resgatar”. Michelle recorda de uma homenagem que recebeu junto com os demais profissionais, de um paciente que venceu o vírus: “Fica marcado os que valorizam a gente e o nosso trabalho, a gente fica com vontade de chorar”.

A pandemia do novo coronavírus trouxe grandes impactos em todas as áreas. Na saúde, os profissionais são até mesmo reconhecidos como super heróis. A profissional de saúde Michelle diz que todos são importantes desde a área da limpeza, ambulância, técnicos, psicólogos, odontólogos, fisioterapeutas, médicos, enfermagem, assistente social e os demais que estão na linha de frente. Por fim, ela faz um apelo para que a população colabore com o uso da máscara, álcool em gel, evitando aglomerações e festinhas.

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O Catraia Digital agradece a todos os profissionais que se desdobram dia após dia para salvar vidas e reconhece o trabalho difícil e apreciável de cada um.

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Mônica Peixoto

Mônica Peixoto

Pupila de jornalismo, apaixonada pela arte e pela comunicação.

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