Como Watchmen deixou de ser apenas uma história em quadrinhos e se tornou relevante para a sociedade

Por: Diego Balieiro

Quando você pergunta para uma pessoa sobre histórias em quadrinhos, muitos acabam remetendo à infância, mas não é o caso dessa história. Escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons, Watchmen foi publicada pela DC Comics entre 1986 e 1987. Ela é a única HQ presente na lista dos 100 melhores romances eleitos pela revista Time desde 1923.

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Em uma realidade alternativa que Watchmen nos introduz como o Estados Unidos teria vencido a guerra do Vietnã e como de fato teria permanecido no poder em um longo período. No final de 1930 os HQ’s de super-heróis ainda existiam e eventualmente se tornaram inspiração para uma vasta série de personagens que iriam surgir posteriormente, as histórias estariam deixando de surgir devido ao alto número de ‘heróis’ na cidade que buscavam combater o crime. O Dr. Manhattan foi o único a ter superpoderes, alguns deles sendo controlar átomos, podendo explodir pessoas e controlar objetos com facilidade e tendo o destaque da sociedade de um homem-deus. Ele foi o primeiro de uma ‘nova era’ dos super-heróis que começou no início dos anos 60 e foi até a chegada da Lei Keene em 1977.

A Lei de Keene se deu devido a uma greve dos policiais e a revolta da sociedade contra os hérois que agiam acima da lei, naquela época o grupo era conhecido como Crimebusters, que combatiam o crime em Nova York. Com a chegada da lei, os vigilantes deveriam fazer um cadastro no governo e continuar trabalhando sob a supervisão, visto a todos esses acontecimentos, a maioria dos vigilantes decidiram se aposentar, pois não queriam ter suas identidades reveladas. Outros como Ozymandias e Adrian Veidt decidiram se revelar para ganhar atenção da mídia. O resto do enredo irei contar com a chegada do filme do Zack Snyder em 2009.

Watchmen não apresenta o estereótipo do super-herói corajoso, ético e patriótico como estamos acostumados a ver, pelo contrário, seus personagens são os mais realistas possíveis, mostrando seus defeitos como problemas psicológicos, sexuais, vícios, a solidão e medos pois naquela atualidade está ocorrendo um iminente holocausto nuclear (era o ápice da Guerra Fria).

Adriel Rodrigues é um grande fã do HQ e comenta sobre essa realidade escrita por Alan Moore “Foi muito importante pra mim por ver que nem a lealdade, nem o companheirismo impedem um amigo de se corromper.” e completou “Tem pessoas que estão além de salvação ou pelo menos da salvação que a gente pode oferecer.”

Seus autores quiseram mostrar e ousar, criando um método de impressão da nossa realidade, esses métodos que fazem os leitores acreditarem que aquilo que estão lendo seja real. O HQ destaca trazendo contextos socioculturais, podendo mostrar que Dr. Manhattan mudou significantemente a história, economia e a política dos EUA em 1985.

Watchmen conseguiu elevar o contexto dos quadrinhos na década de 1980, justamente quando surgia HQ’s de conteúdo mais sérios como Maus de Art Spiegelman, A Queda de Murdock e The Dark Kninght Returns de Frank Miller. Responsáveis por despertar um público adulto para um formato considerado até então infanto-juvenil.

Do papel para as telonas

Com a chegada da era dos filmes de super-heróis no final dos anos 2000, Zack Snyder trouxe um contraponto muito importante. Em 2009 eis que estreou Watchmen que foi quase tão necessária quanto os quadrinhos, que pôs o conceito de história em quadrinho com tudo para um novo público.

Deric Rafael conheceu a história através do filme, é fã até hoje e leu todos os HQ’s, e entrevista ele conta sobre a relevância da trama para ele “Eu fui desenvolvendo com o tempo, gosto muito das HQ’s, tem um tema um pouco mais sombrio, realista e cada personagem tem uma identidade muito marcante exemplo disso é o Dr. Manhattan que tem uma construção complexa e um desenvolvimento até mesmo com herói”.

A história se inicia com os super-heróis aposentados devido a Lei Keene, nisso o então Edward Black, ex vigilante conhecido como O Comediante (Jeffrey Dean Morgan) é assassinado, com o ocorrido, Rorschach (Jackie Earle Haley) seu ex-colega decide investigar.

Enquanto Rorschach investiga o crime, uma possível guerra está prestes a iniciar, um holocasto nuclear. História do presente e passado se misturam buscando ser o mais fiel aos quadrinhos, fatos que são abordados como aparição dos antigos heróis, a greve e revolta da população até a criação da Lei Keene.

Tentar criar uma versão cinematográfica de Watchmen não seria uma tarefa fácil pois Alan Moore sempre foi criterioso e não gostava de suas histórias nas telonas. As expectativas eram grandes para o filme de Snyder devido ao seu trabalho em 300 que foi outra adaptação, HQ de Frank Miller.

O filme é provavelmente a transposição mais fiel já feita de um HQ, trazendo cenas de referências aos quadrinhos, o diretor também buscou esboçar críticas inteligentes, temas que os HQs buscavam trazer para suas histórias. Eventos importantes para a trama, histórias dentro da história e experimentos narrativos, como backstories em forma de relatórios do governo, essa obra foi uma reinvenção do gênero e da própria HQ como meio de expressão.

Um dos poucos filmes do gênero de heróis, Snyder foi ambicioso ao colocar seu projeto para mais de 18 anos, mas pode explorar mais os temas como abuso, a guerra, opressão e tons sádicos. Dito tudo isso Watchmen se tornou um grande sucesso e um marco para a cultura pop.

A era da TV

Vamos recapitular, sucesso nos HQs, sucesso nos cinemas e agora o que mais faltava? HBO nos deu a resposta no final de 2019 com a série, e Damon Lindelof ficou com essa responsabilidade. A série por sua vida se passa 34 anos após os eventos da história original, o diretor introduz novos personagens e alguns já conhecidos, e cria uma nova história dentro daquela realidade, sem fazer um reboot.

A série se inicia com as tensões raciais de Tulsa, Oklahoma, nos Estados Unidos em 2019. Um grupo de supremacistas brancos chamados de Sétima Kavalaria, sua maior inspiração veio em cima dos diários de Rorschach e tornando para si o rosto do personagem e travando uma guerra contra minorias e a polícia estabelecendo reparações para as vítimas de injustiça racial.

Na véspera de natal de 2016, durante um evento intitulado ‘noite branca’ a Sétima Kavalaria atacou a casa de 40 oficiais do departamento de polícia, sobrevivendo apenas 2 naquela noite, Angela Abar (Regina King) e o chefe Judd Crawford (Don Johson). Anos após os ataques e a força da polícia e leis sendo criadas, essas mesmas leis que requerem que os policiais usem máscaras para a proteção de suas identidades.

A série mesmo com uma história nova, Lindelof conseguiu entregar um ótimo trabalho, a narrativa é bem rica e desenvolvida, algo que poucas séries inspiradas em quadrinhos trazem. O enredo foi muito forte em questões de temas raciais, recriando até o ataque de Tulsa em 1921, que se tornou um dos piores capítulos na longa história de violência racial nos Estados Unidos.

Em 31 de Maio daquele ano, uma multidão de pessoas brancas invadiu e destruiu Greenwood, naquela época era uma das comunidades negras mais prósperas do país, que foi apelidada de ‘Wall Street Negra’. O ataque se estendeu por 18 horas, casas e estabelecimentos foram saqueados e é estipulado que cerca de 300 pessoas morreram e 10 mil ficaram desabrigadas.

O fato ficou ausente dos livros escolares durante décadas, mas ganhou a atenção quando foi tema de um dos episódios logo no início da série. Muitos telespectadores chegaram a confessar que não sabiam daquele fato.

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Regina King a Angela na série, chegou a tuitar uma reportagem sobre esse tema, depois de ver as pessoas comentando sobre a cena no episódio, segundo ela a série deu uma abertura para pessoas conheceram e ouvirem falar sobre a ‘Wall Street Negra’ já que não era ensinado nas aulas dos Estados Unidos

Se tornando uma das melhores minisséries já produzidas pela HBO e ter tido ótimos números de audiências e deixando sempre finais abertos em seus episódios, esperamos que o canal faça mais uma temporada mesmo o diretor dizendo que criou o projeto pensando apenas em uma só.

Em 2020 Watchmen foi a grande vencedora do Emmy, levando para casa 4 prêmios da noite, são eles: Melhor minissérie, roteiro, atriz em filme, minissérie ou especial para TV.

Watchmen inovou com os seus métodos de impressão da realidade, seus anexos que se relacionam com a ficção e contexto social da época. O cuidado em recriar fielmente documentos como ficha criminal, livros, artigos, revistas e jornais. O poder simbólico da imagem que remete a nossa realidade que criam uma interação seja ela de sentimentos ou ações que ligam seja o leitor ou telespectador.

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Diego Balieiro

Diego Balieiro

Acadêmico de jornalismo na Universidade Federal do Amapá

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